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Já estamos quase todos vacinados
Não se engane o leitor. Não estou a falar da vacina contra a covid-19. Essa está por enquanto reservada ao pessoal de saúde, e parece que nem todos, ao universo dos lares que abrange alguns membros dos órgãos sociais das respetivas entidades gestoras e, sobrando frascos, aos idosos que lá residam, a alguns deputados mais ansiosos a começar pela inenarrável figura do Dr. Ferro Rodrigues, aos conselheiros de Estado não vá o Presidente Marcelo querer consultá-los virtualmente um destes dias, a um padre católico e à sua querida mãe, aos dedicados trabalhadores de uma pastelaria onde os funcionários do INEM do Porto costumam tomar café, a uns médicos amigos da Cruz Vermelha que devem ter faltado à primeira chamada e provavelmente a mais alguns sortudos que ainda iremos conhecer através da comunicação social.
A pandemia serviu para destapar aquilo que já pressentíamos. O Estado que pagamos com os nossos impostos não serve para grande coisa. Sabendo que já não é possível arrecadar mais receita por via fiscal, temos de perguntar se não terá chegado o momento de reformar tudo o que é serviço público e de o adequar às necessidades dos cidadãos garantindo a proteção dos seus direitos. E para que não venham já acusar-me de perigoso neoliberal devo esclarecer que defendo um bom serviço nacional de saúde, uma excelente escola pública, um sistema judicial eficaz e célere, uma polícia organizada com os meios humanos e materiais indispensáveis à sua pronta atuação, entre tantos outros serviços e funções que estão, e deverão continuar a estar, acometidas ao Estado. Mas infelizmente não é nada disto que temos hoje.
Os hospitais funcionam o melhor que podem porque a emergência obrigou a que assim fosse, mas todas as patologias não covid ficaram para trás, os centros de saúde deixaram de ter pessoal porque muitos foram deslocados. Morrem pessoas como nunca aconteceu e depois da pandemia e de milhares de milhões gastos tudo voltará ao que era dantes. As escolas lá vão funcionando, umas melhores que outras, porque boa parte das responsabilidades foram transferidas para os municípios que vão fazendo o melhor que podem. Os tribunais só funcionam para casos urgentes – um eufemismo dado que em Portugal não há nenhuma urgência processual que não possa esperar – ou quando a comunicação social se lembra de fazer muito barulho. As polícias especializaram-se nas operações de fiscalização de circulação entre concelhos vizinhos e a acompanhar o transporte das vacinas. Na verdade, ainda bem que assim foi porque não têm meios para muito mais do que isso.
O Estado revela enormes carências e fragilidades. Ao mais pequeno sobressalto tudo ameaça ruir. Nunca consegue ser proativo. É sempre reativo e, em consequência, trapalhão. Não resolve problemas estruturais. Inventa desculpas e adia as soluções querendo sempre dar a ideia de que o processo de normalização está em curso e que o resultado será o que de melhor se faz no mundo civilizado. Tudo conversa. O que falta ao Estado é competência, é visão, é planeamento, é dedicação à causa pública, são condições para bem remunerar a qualidade e o mérito. Propositadamente, e eventualmente de forma dolosa, os decisores foram deixando sair muitos dos seus melhores quadros, foram permitindo a externalização de muitos dos seus serviços, foram tornando cada vez mais complexa e burocratizada a sua capacidade de intervir, foram criando e sobrepondo serviços que apenas servem para atrapalhar o trabalho uns dos outros. É para isto que os nossos impostos servem. Para pagar um Estado ineficiente, incompetente e cada vez mais inchado. Esta não é uma questão que possa dividir a direita ou a esquerda. É apenas uma realidade que tem de ser combatida por todos. Porque estamos a ficar cansados de tanta irresponsabilidade e desperdício. E contra a mentira em que vivemos já vamos estando quase todos vacinados. Exceto aqueles que, tal como com as vacinas da covid, se acham mais espertos do que a generalidade dos seus concidadãos.
Contra a mentira em que vivemos já vamos estando quase todos vacinados.
