A FRASE…”Atrevam-se a enfrentar o monstro. Um monstro congeminado por Salazar, deixado à solta pelo PREC, acarinhado por Cavaco Silva e tornado insaciável desde então.”Miguel Sousa Tavares, Expresso, 21 de Setembro de 2019  A ANÁLISE… Um monstro que passa por diversos regimes políticos durante um longo período e continua saudável e vigoroso não poderá ser sempre o mesmo, terá de haver uma caverna de onde vão surgindo, periodicamente, as sucessivas gerações de monstros, cada um referenciado à sua respectiva época. O monstro gerado por Salazar não foi igual ao que o PREC produziu, nem igual ao que Cavaco Silva denunciou, e nenhum deles é igual ao monstro que nos aparece agora em cada orçamento anual – mas todos eles deixaram as suas marcas no que é hoje a dívida pública, que seria insustentável se não houvesse a intervenção benévola do Banco Central Europeu que mantém os juros baixos e até compra dívida pública, que acomoda no seu balanço, onde pode ficar por tempo indeterminado porque é um banco emissor. Mas se a imagem do monstro pode ser sugestiva, ela é enganadora, como acontece com todas as imagens mitológicas. Se há monstro (o défice orçamental ou o défice comercial), é porque há uma caverna de onde emergem esses desequilíbrios monstruosos, sempre diferentes em cada época, mas todos saindo da mesma caverna. E a caverna é a sociedade portuguesa que, entregue à satisfação dos seus desejos, justifica como sendo necessidades ou direitos adquiridos e sempre como condições de justiça social para corrigir as desigualdades, produz os monstros com que se assusta, como se não tivesse sido a sua preferência pela distribuição e a sua recusa da competição que fazem nascer esses monstros. A caverna do monstro faz parte da identidade nacional, resiste às mudanças de regime político e de protagonistas. E assim continuará a ser enquanto os partidos políticos e os seus dirigentes não reconhecerem que o desafio da modernização, a vitória sobre o monstro em todas as suas formas, só será possível quando assumirem a responsabilidade de comunicarem à sociedade que a sua preferência pela distribuição, que repete em cada eleição, é a origem da sua pobreza e da mediocridade do seu crescimento económico. Os que pensam que a legitimação do poder resulta da satisfação das preferências dos eleitores condenam-se a não exercer o poder que assim conquistam.  Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico Este artigo de opinião integra A Mão Visível – Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.maovisivel@gmail.com


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